07/01/10

filo-café : Descoberta / Invenção

Filo-Café : Descoberta/Invenção
16 Janeiro 2010, 21h30m
Taberninha do Manel
Av. Diogo Leite, 308
(Ribeira de Gaia)
Vila Nova de Gaia

Apresentação do livro Sonetos Para-Infantis de Pedro Ludgero


Estão abertas as inscrições para este filo-café. As inscrições, gratuitas, devem ser formalizadas enviando um email para arditura@gmail.com indicando nome, proveniência e área de intervenção.

Inscrições em permanente actualização:
Mónica Delicato (Gaia, fotografia), Pedro Ludgero (Gaia, poesia), Carlos Vinagre (Espinho, poesia), Carlos Silva (Porto, fotografia), Elisabete Pires Monteiro (Porto, pintura), Alexandre Teixeira Mendes (Porto, pensamento), Nelson Silva (Porto, fotografia), Sílvia Silva (Matosinhos, performance), Henrique Dória (Porto, poesia), Vitor Dias (Porto, artesanato), Julia Moura Lopes (Gaia, poesia), Suzana Guimaraens (Gaia, poesia), Mariola Soutelo (Vigo, poesia), Rafa Balado ( Sárdoma, Vigo, poesía), Xabi Xil Xardón (Morgade, A Limia, poesía), Bruno Miguel Resende (Aldoar, poesia),


A verdadeira Descoberta é a Destapada. Clicam-se sinapses entre o infantil e o pueril. Não são válidos os apitos de árvores ou as vozes de comando das esquadras. A esquadria é, quando fixada, um dos rotundos fracassos da posição sanitária, divina.

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Dos mistérios pingados à descoberta plumada
por Bruno Miguel Resende

Era um belíssimo dia que acordava noctívago. Dos bueiros esguichavam fontes de fluxos espúmeos esverdeados, e os postes de electricidade trocavam sinapses com palmeiras arqueadas ao prazer da ayahuasca, enraizada à folha. Televisionavam-se vegetais que derramavam psicofluidos violetas pelos telhados de vidro de cabanas apinhadas, a transparência violava-se à extrapolação do desejo, pois que as instrumentalizações de sopro emergiam cantarolantes enquanto nadavam.

O vento era ténue. Não obstante fazia deslizar máquinas de lavar em permanente tempestade esotérica até cumes de várias fendas, faziam trocos em sucateiras. Muitos tambores eram exportados clandestinamente para montanhas ritualistas piramidais, deglutiam humanos que dançavam aos ritmos das coreografias das palmeiras. Claro que era um prazer até deixar de o ser.

Os céus feitos de alcatrão excessivamente negro encontravam-se demasiadamente perto dos solários, e pingavam. Mas e os sémenes ejaculados das montanhas mais cultivadas em eros? Desenhavam enteogenias de escrita hieroglífica. Não pingavam. Os seres plumados que conseguiam desvendar os mistérios seminais aprendiam a voar, mas não o faziam por existirem pingas.

Resolvi abrir a cortina de negrume e acabei por verificar que as profecias do peixe-cabra, envolto em estrelas ronronantes e intermitentes por falhas hidráulicas, estavam correctas. Os astros lógicos metamorfosearam-se em astros lábios, e beijei-os em todas as bocas que consegui, as que não consegui beijei igualmente, mas com trincas, geometricamente calculadas antes do sextante. Pingaram salivas que se transformaram em cascatas onde vários esquilos se banhavam tropicalmente, os jaguares tocavam nas flautas de pã ritmadas a darbukas, já a predilecção felina era banhada às próprias salivas, sem misturas. Convidei o esquilinho que saltava à corda para vir fazer um sacrifício em homenagem ao horóscopo certeiro, como ele aquiesceu fui buscar as caixas de pandora, ele decidiu desagrilhoar o prometeu.
Rapidamente uma panela emergiu da sucata e se colocou a fervilhar sobre as chamas sopradas ao prometido. “Para a panela! Para a panela!”, clamava o esquilinho entre pigarros de chá de cidreira enrolado em papel higiénico, fora colhido usado, à ceifadela cega de eclesiásticos pernetas das três pernas, mas com muletas medievais. E haviam-lhe elucidado, “É o advento do desinsabido! Glória à supressão do palato!”, ao que ele prontamente crucificou duas colheres e apedrejou um bule até à morte. Clandestinamente se imiscuíra numa barcarola de lago frio e nunca tinha saído do sítio, achava que sim e era o bastante, mas saltavam-lhe arco-íris das pupilas e de alguns pêlos das orelhas.

Da primeira caixa, banisteriopsis caapi, sacrificação à moagem, panela.

Da segunda caixa, psychotria viridis, sacrificação à moagem, panela.

Contas feitas e o esquilinho dava aos remos em remoinhos de fervedura, embarcado em barcarola de lago quente, “Estou dentro da panela! Dentro da panela! Lux natura ad aeternum!”. E antes da gastronomia arcaica já tinha o esquiláceo sucumbido aos vapores, internei-o em caixa de pandora espetado a soro lisérgico, por instantes morreu envolto em caleidoscópios obsidianos.

As filtragens deram-me o deglutido, lançei-me na cosmogonia fluida. Eram derrames de plasmáticos que suavizavam epidermes, polidas até reflectirem estrelados em potências que não se intermitiam, ondulavam enquanto as palmeiras arqueavam mais e os postes de electricidade tombavam estilhaçados sem estrondo. Explodia a refulgência harmónica e todo eu pingava. E ainda não tinha bebido chá.

O prometeu agrilhoara-se a uma garrafa licorosa, escorregava-lhe das mãos claro está, mais ainda entre os dedos, e o fogo não ajudava. Guardou-a numa algema e foi fazer malabarismo com fitas, asseverava que as labaredas lhe queimavam o cabelo, já pandora arquivava caixas em caixas maiores. “É a vez do caixão!” entoava estridentemente fazendo vibrar os vidros que já não existiam, mas que também estilhaçavam. Apressei-me a reanimar o esquilinho para as bebidas, arrancando-o das mãos da nova agência funerária, técnica do estalo, ele penteou os bigodes e coçou uma pestana cadente.
O mascado melhor se afundou no universo do pingado, todo absorvido, era um leito de flores que vibrava caules, oitavas para cima, para baixo, e explodia luz gelatinosamente fluorescente. E a potenciação da descoberta?

Precipitamo-nos na busca.

Encontramos ostras plantadas em mundo paralelo, à distância de uma porta. Resolvemos ir à volta porque a chave tinha ido dançar para a sucateira, dedilhavam-se harpas porque os tambores tinham esgotado. E as colheitas que eram de perder as vistas? Sem necessidade de olhos para ver, recolhemos com as mãos, uma a uma até conseguirmos ter mais que várias. E eram iguais. Por consenso universal escolhemos a mais igual de todas, e derretemo-la à força do lança-chamas que estava escondido em bolso prometeico. Claro que o mistério prometido era o derretimento, e o esquilinho encarregou-se do mercúrio anal. “Está morninho…”, “E agora?”, “Quente.”, “E agora?”, “Mais quente!”, “E agora?”, “Escalda como lume!”, seguindo-se até ao rebentamento como uma bolota. Mas com som de ostra.

E como o novo mistério abismou!

“Tão lindo…”, repetia infinitamente o esquilinho até que os ecos o calaram com um pontapé.

Pois dentro da ostra não existia nada.

Nem pingas.

E então decidimos voar plumados.


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Descoberta/Invenção

Invento o que descubro quando os passos do meu pensamento se retêm onde já estão
Daqui para aí, saltitando no obscuro mundo que julgavam não conhecer desenham os círculos onde o tempo se repete com precisão.
São feitos de espera os passos largos que envolvem os abraços da desilusão.
Ao peso de cada passada, sem querer, ou apenas por assim o desejar, descubro que inventei o que desde sempre é conhecido e repousa na quietude perturbante do vazio que o envolve.
Aí estou eu, à procura do que já sou no desconhecimento de mim mesmo.

Sarmento Manso

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dreier, ordet, palavra,



Dizer Dreier como quem Diz O Rosto Que Cai em Próprio.
Resfolegar os diaporamas no oxigénio das Visturas Extrapolares

06/01/10

veludo e mosto por entre as coxas



Ódiote.Vou canso ata o Dnieper. Hai un frémito para que as miñas uñas procuren as túas raizames. Vou canso por tres camiños, un polo que todo se asolaga coa lingua húmida de diluvios e devezos agás os picos de Ará e Babel, outra pola das arbores cantareiras que desenrolan nas túas extremidades fragas cobizosas e logo, máis contra o oeste, o do riso das caveiras deixando atrás a cidade de Tangut para que a filla de Kublai-Khan me atenda de morte, e onde sei cair de á par deitado na duna das súas cúpulas torácicas, e ódiote por tanto que sei comezar calquera das miñas vías nómades coas uñas para rematar cos dentes, e máis aló, máis aló so fican as Montañas do Sal, e os sedentos caravaneiros advertidos de que Tchang-Kien, o enviado, non voltou en dez anos, e ti sabíalo e andiven perdido polo segredo da seda, entre colo e o ventre, sen que Samarkanda me orientara polas túa rotas para ir moito, moito máis ó leste, onde se encamiñan os exércitos de terracota pola banda dos ríos caladiños na procura da eternidade e onde de súpeto o sur abrocha en Turpán descargando as mercadorías de veludo e mosto por entre as coxas, escoitando na hora da sesta a Morricone no sillón vermello polo desfiladeiro de Yanguan, onde os desertos son quentes e clamorosos no meu odio a miles de quilómetros de pestilencia, alén de Li-Kien, e a bolboreta siderúrxica da tinta pesa nos ollos de cobre antes de espertarme para sempre.


x.m. vila ribadomar

05/01/10

Desvarios d' elisabete pires monteiro


Desvarios da Musa
Expo de Elisabete Pires Monteiro
23 Janeiro 2010, 21h
Clube Literário do Porto
Rua Nova da Alfândega
Porto


Feliz é quem as musas/ amam, doce de sua boca flúi a voz
Hesíodo, Teogonia (vv. 96-97)

A arte de Elisabete Pires Monteiro possui um sentido amplo: toda a irrupção (a força energética) da pulsão plástica. Admite-se, implicitamente, a determinação “fundamental” do conceito freudiano de pulsão”. As pulsões caracterizam-se por aquilo que Lacan chama “deriva”. Parte-se da articulação das pulsões como rede de significantes. O que está implicado aqui é o fluxo do devir - a demanda que funda o inconsciente - as flutuações-bifurcações da criação plástica - que requer uma intensidade e um excesso pulsionais. Creio que o que é revivido na “transferência” é essa busca na qual o sujeito se procura correndo o risco de perder-se numa forma de “des-ser” e – porque não? – de loucura.

loucura poética

Platão (427-347 a.C.) distinguia quatro formas de “loucura divina”: a loucura profética, a loucura ritual ou iniciática, a loucura poética e a loucura erótica. Todas elas, afirmava Platão, se produziam quando um deus alterava as habituais normas sociais. Afrodite e Eros eram considerados os deuses protectores da loucura erótica, o estado de arrebatamento que se tomava por desejável. As musas representavam a loucura poética, cujos produtos gozavam de grande aceitação entre o público. A loucura ritual se inspirava em Dionísio, e Apolo foi a divindade protectora da loucura profética. Poder-se-ia demonstrar que as sacerdotisas que emitiam vaticínios em Delfos prostravam-se em algum momento em cada uma destas formas de loucura. A palavra “mantis”, adivinho, vem de “mainein”, que significa experimentar o frenesi ou entrar em êxtase.

figurações

O deslumbre, provocado pelas telas de Elisabete Pires Monteiro , pode-se explicar pelo carácter de circularidade. É a realidade da auto-travessia do corpo – a ancoragem da psique no corpo - que constitui grosso modo a lógica implacavelmente irresistível das suas obras. A sua pintura pode ser tomada como uma abertura às ficções (figurações) do eu. É inacessível por ser acessível. As suas criações enraízam-se no pulsional que tem por correlato a intemporalidade do inconsciente (as fulgurações do amor e suas formas sublimadas). A ambiguidade, imprescindível à arte, está arraigada na obra de Elisabete Pires Monteiro. Nas suas cogitações – obra-resultado - parece emergir eros (referenciável a partir de indícios indirectos, parciais ou dispersos) e seus prolongamentos simbólicos (recalcados, disfarçados ou transformados de uma sexualidade muito mais vasta do que as suas manifestações observáveis).

“fora de si”

A pintura, em Elisabete Pires Monteiro, caracteriza-se como um tecido mesclado pela pré-cognição. Na configuração dos oráculos, da exaltação da Musa ou Apolo (um “fora de si”). A sua obra insólita - de re-conexão com a alma e o self - a cor eloquente - condensa os conteúdos espirituais da psique. “Desvarios” é uma ideia-chave: parte-se dos meandros de um acervo simbólico, um núcleo delirante, um “passe” mágico, um “traço” primeiro, arcaico, cosmogónico (uma “inspiração espiral”). É importante notar o traço somato psíquico: plano a plano centra-se no feminino (a especificidade feminina, que escapa, em larga medida, à conceptualização).

“fantasmática”

Em Elisabete Pires Monteiro defrontamo-nos com o elemento compulsivo – a compulsão à repetição – as singularidades de uma “fantasmática” pessoal. Mas a sua pintura, com efeito, não poderá ser circunscrita à espontaneidade do inconsciente - a economia libidinal (a libido transfigurada) e seus incidentes (episódios) biográficos - cujo ponto de partida seria a pregnância (regressão) neurótica ( “perversidade”). O seu trabalho consubstancia – por sinal - um modo pessoal e estilizado – no entrelaçamento afirmativo da infra-estrutura do inconsciente - deve considerar-se como indissociável da “revêrie” poética. Revela-nos numa série de pautas esotéricas e de arquétipos universais “imagens-princípios”. Não se pode esquecer, além disso, a proeminência do onirismo.

(com)pulsional

Nas telas de Elisabete Pires Monteiro assiste-se a essa transformação da imagem sensorial em imagem íntima e símbolo (na assimilação de efeitos pictóricos únicos, nunca repetidos). Torna-se bem patente o âmbito das mediações (o simulacro) do desejo: uma “mélange” de erotismo e de “quête” da alma. A sua arte constitui, como já dissemos, um “singularizar” que põe em jogo inúmeros planos do conhecimento e da experiência. Vemo-nos transportados ao inconsciente - o pensamento não pensado - o “trabalho do sonho”.
arqué
A fantasia inconsciente – na sua função simbólica - encontra o meio de expressar seus conteúdos. Será lícito falar-se de uma pintura que nada tem a dissimular. Sobrevém aqui o enigma do desejo - do lado do sintoma - o reinvestir do corpo e do pensamento (na “reportação” às profundezas da arqué). E por isto mesmo se compreende o seu género livre - leia-se - de desnudamento e de nudez. A diferentes níveis perpassa o sagrado, do in-habitual em face do quotidiano e do familiar. O aspecto dominante e típico da sua pintura continua, no entanto, a ser, em nosso entender, a sua força (com)pulsional, constituindo ela, afinal, um corpo disseminado. E em que o descensus torna-se ascensus.

Alexandre Teixeira Mendes

listen very carefully i shall say this only once



follow that car
e não sei dizer mais nada
na vossa língua


....................................


presumo que me vão falar da vida
como se ela fosse
uma anedota sobre bêbados
mas eu já soube tantas tantas coisas


até já soube o que era a matéria clara
e fui eu que lancei a teoria
de que nenhum clima aguentaria
uma subida de mais de dois graus


descobri que, para a lua, as marés
são algo menos que escalas tonais
e aprendi a distinguir os homens
entre venenosos
comestíveis
ou medicinais


chamava à andorinha jocasta
não fosse o frio tornar-se enigmático
era doutor na arte de escandir
hoje sirvo pinga amoris causa


e é quando a matrícula da pedra
se torna finalmente discernível
(porque a morte se aliou ao inimigo)
que eu percebo que só eu remo
na direcção que está correcta


pedro ludgero

04/01/10

Idioma

pedem-me que desperdice, que deixe estar,
que me desnomeie com um defeito do sono,
e que desse início desafie uma erudição
com um incêndio no idioma de dentro.depois oferecem-me uma porta, uma porta
que quando bate sobrepõe
um silêncio de limão sobre a coxa, que
hetero-consome e auto-escurece. dizem-me:
desperdiça, sylvia, deixa {r}estar, põe
cada pé em cada prato da balança do
inacontecido saudável, prediletiza a partir
desse ponto até à humidez do teu ego de exposição.
por fim, deixam-me uma janela que ensina
o modo como os sujeitos procuram os predicados
que inutilizam, e
mostra explicando
a independência da incompletude
daqueles que crescem como flores.

Sylvia Beirute

03/01/10

en la estación / na interfauce

en la estación.

Vengo del odio
de la espera del odio
del amor al odio.
Pongo el oído en el piso
hago una úlcera que escribe mi nombre
las escucho venir
por las vías que huyen
al sur.
Son las jaurías que alimentó el desierto
las que me siguen la huella,
el palmo oscuro
de mis huesos.
Miro a la virgen de los viajeros
decorada con australes
abandonada
desparramando como yo
el tufo que atrae a las bestias
que ya llegan
que están acá madre
para que nos enteremos juntas
que en esta estación
ya no hay que esperar nada
ni alejarse demasiado
para irse en viaje
para morir

Na interfauce.

Cheguei do ódio,
venho de onde se espera o ódio,
onde se ama o ódio.
Debruço o ouvido no chão
em mim se abre uma úlcera que me escreve o nome
estou a ouvi-las
nos ferros dos carris que fogem
para sul.
São as matilhas de alimento ao deserto
seguindo-me o rasto
o lastro obscuro
dos meus ossos.
Olho para a virgem dos andantes
decorada com sulâmides
abandonada
fragmentando tal eu
o tufo que atrai as bestas
que estão a chegar
que estão já aqui, mama mia
assim nos realizemos ambas
nesta interfauce
esperar só nada
não nos afastarmos muito
à viagem
para morrer


letícia ressia

02/01/10

na mão que segura a maçã



uma voz acusmática
sem corpo, com precisão
diz coisas cruéis pro niño
o sol derrete os pássaros
antes de sumir na sombra
um monstro finge gritar
e crava os dentes
na mão que segura a maçã.


camila vardarac

01/01/10

sem título



Simon est mort
Simon está muerto
Simon is dead
e não terá sido inédito: leucemia rimou com pneumonia
enquanto ele ia; todavia, não devia, que bem o sabia
porque a saudade da companhia certa faz, por vezes, tocar à campainha errada
e parecem meras letras escritas em cima da cabeça,
porém é essa a ilusão


e os corrompidos até poderão esfregar as mãos pelo seu pretenso silêncio
e o cabelo dela ainda ondular no ar depois desse gesto hierático
– como um berilo –
e até o teclado apoderar-se do pó e da cinza,
mas é a saga da ilusão
porque os corrompidos não entenderam que o seu rouge é de longa duração
(como as pilhas de alguns gatos)
assim como não compreenderam que
a liberdade foi a prenda que ele se ofereceu neste Natal
e a ela
uma liberdade por embrulhar
por ser [demasiado exacta]
daquelas que aliciam a continuar jornadas
na sua pretensa ausência
para que ela acreditasse na presença deles
e na nossa
bem como nestas palavras


: que ele sempre soube que ninguém precisava de ninguém para se proteger,
mas havia palavras por dizer que foram ditas
– como águas-marinhas –
palavras que fizeram vidas
e mais palavras que atestaram outras
que irão continuar
e agora
Simão morreu,
mas não é a morte:
“é a vida!”
e a vida não é [Coisa] para se chorar




Suzana Guimaraens

26/12/09

unha nota coas tallas da roupa


Enfróntome ás sabas en branco, por veces non sei que escribir, por veces non sei se escribirche, non sei sequera se será xa bo escribirche tan cedo. Tal é como che sinto, síntome moi só diante das túas sabas en branco, e para que demo madrugas tanto? A cama queda baldeira e a miña caligrafía vaina esluir a chuvia interior. Busco na escrita unha forma para que aparezas, busco na escrita un xeito de que desaparezas. Na lentura dos tecidos deixas as túas contornas de cal viva que desfiguran as quenturas nos papos dos meus dedos e o borrallo das túas fazulas déixache un fume de sombras nas pálpebras cando todo comeza a estar claro e vou repasando unhas miradas ventaneiras contra a parede. As vogais fican abertas e as inguas mudas. Nada, nada está escrito

 
Tranquila, a ti non che vai pasar nada, nada. Levo todo o día cos pes mollados, aterecidos. Acouga, vai a modo, eu seguirei un anaco sentado, só un anaco, algo tapado. Sabes, non sei, pero escoito esa música, a desa película, quérote, ás veces moito. Pero como siga chovendo así…ten que parar, as nubes están enchoupadas, pésanme, son de la mollada. Coido que está a soar o teléfono da túa casa, estanllo a dicir todo sobre min, todo, non, non, esquéceo ti vas estar ben, non che vai pasar nada, van pasar por diante túa nai, teu avó, teu irmán e vanche entregar despois o sobre castaño, grande, con todo: unha nota coas tallas da roupa, as chaves e toda a lotería que merquei. Tranquila, sal, axiña, corre, atravesa pronto, non mires atrás, non mires nunca atrás, inda que non poidas escoitarme, berro, vaite na procura dun lugar seguro, e ó mellor escóitasme, óesme no medio deste balbordo, quen sabe?, vai daí, vou quedar deitado un chisco, un chisco, inda non me trouxeron ninsequera a saba para taparme, non quero que tarden xa, e antes, antes teñen que deslatar por riba o coche, seino, coido que inda podo agardar máis, por favor, vaite, vaite un pouco, á outra beira, onde alguén che poda preguntar que pasou, a ti non che vai pasar nada, seino, é o único que sei, teño pes os mollados de nubes, de vento e de inverno, e soa esa música, gustoume moito a película, poño este casete vello cando vou ir lonxe.

x. m. vila ribadomar

17/12/09

pintura cega de uma cadeira mais leucótomo

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aline daka