07/03/10

filo-café dandismo em Compostela




Com: Sérgio Lago, Lois Gil Magariños, Comba Campoy, Manoel Bonabal Barreiro, Elisabete Pires Monteiro, Alexandre Teixeira Mendes, Alberto Augusto Miranda, Cruz Martinez, RosaNegra, Alberte Moman, Alba Mendez, Carlos Silva, Maria Carvalho, Carlos Vinagre, Pedro Jordão, Sabela Arias, Filipa Aranda, Xosé María Vila Ribadomar, Enrique Leirachá, Alicia Fernandez Rodriguez, Alfonso Láuzara, Anxo Pastor, Concha Rousia, Bruno Miguel Resende, Virgílio Liquito, Beatriz Salvador, Emilio Cao, Ramon Cruces, Pedro Lamas, Antonio Rivas,



Charcos e Charcot
Estavas-te diante do cosmos, sem planetas de redução, na dor aguda de existires no cosmos e apesar do cosmos? Estavas-te na doença da gnose? O que sentias no diante empurrado por essa dor? Por essa dor de não visualizares o que te transportava ao fora? Sem juízos, o buraco azul do corpo. Bluehole. O instante agora depositado na incómoda, sob a série Sargadelos. Cobalto. Cobáltico por extenso. Sair da Torre, da Terra? Na casa, a convocação da hidrólise. Corporizar a fonte diante dos charcos. Nem Charcot, nos seus Quentais, ultrapassaria os Charcos. Viver em Charco, criar uma arruaça de Charcos, hormonificar o cidadão castrado. Trazer sésamo para empedrar o palco dos poemas. Deixar cair o poema, deixar-se cair, diz a Luiza: o poema ensina a cair. Ver lã no prolongamento, Ver Laine.
Activar o barroco do buraco, soletrar as entranhas: fígado napoleónico, gastro de bach, palato de rabelais, rim de beau de l’air. Rim Baud, uma mercadoria talhante com muito consumo. Reicepção. Vulgar é quem recepciona, só, muito se enganou o Charles sobre a sua panfêmea, não a viveu, não a levou ao cosmos. Encheu-se de amor dele para com ele, dele com ele, ele e ele, foi uma circunstância de dor suprema. Teve que a vestir, teve que a poeblicar.
Voltar ao Nu, ao Trágico? Mesmo no Teatro de Atenas não houve Nu, houve Representação do Nu. O Nu não Existe. O Nu é o Para-isso. Na Tragédia esquiliana o homem trazia púrpuras e púrpuras de mitos. A Nudez é o pró-Mito devolutivo e deflagrador do homem no século 21. Mais que desconstruir-se, como protuberância derridasiana do século 20, poderá o homem defender-se das formatações, isto é: preservar a sua nudez?
Depois do dandismo brummell-baudelaireano que Benjamin assinalou como pós-grado romântico, ou modernidade, ainda que sob os açoites sartreanos no púlpito da opinião formatada, o Modo e não a Moda situa-se ainda na ancoragem da diferença. Como ser diferente de toda a cromice que os anais registam, públicos e privados? Este dilema de Baudelaire, dentro das muralhas de Paris, extensiona-se para 2010: como assinalar uma (e só uma) diferença? Não esquecendo o Cosmos, Poma Fidiró, intraível por si própria, estica a perna e bufa diante das muralhas: “Aí não entro, nem para ser dandy
alberto augusto miranda
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emerita mendez
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François Lucifer
François Lucifer tem 33 anos e é estilista. Os amigos chamam-lhe Lucifer apenas para brincar com ele, mas a verdade é que esse sempre foi o seu nome e foi por esse nome que ficou conhecido. François Lucifer tem uma cadeia de lojas de alta-costura espalhada pelo mundo inteiro. A maior parte dos seus clientes são dândis e vedetas perdidos, mas ainda no activo, com um ar distanciado pelo reflexo das rugas na ironia.François Lucifer apressa-se a vesti-los consoante a sua solidão e o intenso desgaste que implica o seu ofício e estilo de vida. Mas, ao contrário de um qualquer outro promotor do seu próprio espírito, François Lucifer sabe que um dândi serve-se de uma retórica emprestada ao jogo e ao tropel e, por isso, desenha-lhes quase sempre no hábito negro que encomendam o quilómetro zero da sua melancolia.A ideia, comentou Lucifer, era colocar o dândi em rota de colisão com ele mesmo. Vesti-lo com o mapa supérfluo da sua falta de sentido para a vida. E brincar com eles, sobretudo brincar com eles. Depois dos animais e das crianças sublevadas de Monelle, concluiu Lucifer, os dândis são das criaturas mais lúdicas e menos lúcidas que eu já vi.André Domingues



carlos silva

Da penta gramática pluviosa

Acordei ressabiado quando embati na janela que afinal era um armário. Estava fechado a correntes, mas já ao lado não, arejava-se. Despi-me da nudez em napoleónica mente e atirei-me ao cosmos em pirueta mortal, não fosse não o ser por falhas nas vertigens.
Aterrei num jumento que revirou os olhos e apreciou as traseiras da nuca onde decorria um filme pornológico. Apliquei-lhe o bondage estalado às nádegas. Mas ele contemplou a inércia. Passei-lhe uma imagem subliminar de uma cenoura a uns centímetros das fossas nasais. Nem suspiro. Ao mesmo por analidade. Nada.
A argumentação da gastronomia do fetiche era irresolúvel. Nem pelas artes da casca frisada friccionada aos abismos da interioridade intestinal. Nem pela descascadela mais sensual à trinca onde a salivação afoga o alheamento.
Vistusionei a animália quando a encontrei. Uma sarna azul bloqueava uma pata ao bicho com tiques de parasitismo inconciliável à locomoção. Arranquei-lhe a pata não fosse a propagação o óbvio do bofiento. A ejaculação da liberdade foi supersónica no inaudível, e o arranque colou-me os mamilos às costas enquanto me agarrei às orelhas jumentais. As três patas guincharam a trezentas kilocenouras por hora.
E no passado? Um blasto-sítio.
Sem chapéu de três bicos e cabelos ao vento enverguei um seio postiço para o lado esquerdo. Agitei uma bandeira repubicana, devidamente genitalizada. Nisto o marquês de sade ultrapassou-me montado pela erzebeth bathory enquanto dizia dolorosamente “Mais um esforço se queremos ser repubicanos!”. Afinal resolver o púbico era mais complexo que o público.
Chegara ao ponto da chegada, o bicho jumental arfava e decidi estacioná-lo ao lado de um jardim de flores maléficas do baudelaire. Adverti-o das posologias de ingestão, já o charles declamava orações a satanás enquanto uns dandizados mascarados de veneza atiravam molotovs por um penhasco abaixo.
Perguntei a um deles quem andava nos baixios, revoltado proclamou, “Os grandessíssimos filhos de deus!”. Apreciei a coisa até aparecer um esquilo profeta de pentagramas ao pescoço, aproximou-se e gritou “Um dia destes irá chover!”. Sobressaltado perguntei ao poe se seria verdade, “É do azul místico.”. Fiquei mais descansado dos sentimentos apocalípticos dispersos na névoa e resolvi entrar na grandiosa arena satânica que me enchia as vistas.
E tudo era infinitamente belo.
Nas bancadas a divindade extravasava. Duas freiras em langeries incompletas entesouravam-se avidamente com um dildo duplo. O arfar fazia masturbações nos circundantes. Ao longe vendia-se hóstias de presunto, chouriço, canela, bacalhau e vegetarianas de receita desconhecida. Bebiam-se sangrias. Um clérigo vestido pela aristocracia negra de cruz vermelha ao peito penetrava escuteiros travestidos com as nádegas empoladas ao chicote. Gemiam baixinho enquanto se falaciavam entre si. Bacantes corriam entre todos de tirsos ensanguentados empunhados e trocavam vinho de boca a boca durante o bramido do evoé.
E então começava o espectáculo na arena. Beatas de joelheiras arrancavam da linha de partida ao som da flatulência trombetada da senhora de fátima, o gáudio fez tremer o céu vermelho. Mas não choveu.
Comi as vegetarianas enquanto incitava as velhas com insultos. A cada um pareciam dar mais aos joelhos. Algumas rompiam as joelheiras e marcavam o asfalto arenoso a sangue. Rejubilava o público até trocarem as protecções nas boxes.
Nisto senti no ouvido uma voz, “humidificas-me”. Trespassei-me de paixões várias vezes até discernir a musa, disse-me chamar-se maria inominável. Confirmei-lhe a identificação bilhetada com uma mão e a humidificação vaginal com a outra. Ambas se confirmaram.
Disse que sim antes de ela me convidar para o altar, e mantive-me afirmativo. Era para o daqui a um bocado. Assim sendo acabei com as vegetarianas e aplaudi a vencedora do joelhódromo. Saltara-lhe a rótula mal passara na meta. Mais louros. Vi ainda a premiação com sacadas de órgãos humanos em cera. Ou verdadeiros. A longitude não me fez percepcionar a coisa no devido.
Fui-me bancada fora em busca de temporização. Vi o anúbis a espetar as orelhas enquanto corriam os rumores de que várias beatas tinham falecido por excessiva perda de sangue. Antes de se fazer às ritualistas de barcarola perguntei-lhe se já tinha passado um bocado de tempo. Ele olhou para uma ampulheta que trazia no pulso e acenou negativamente com a ponta do nariz.
No indeciso decidi aceitar a proposta de falaciação a dois anjos vermelhos que se masturbavam em ritmo moluscular. Degluti as tesuras gélidas em compassos de sincronia com as canções que me entoavam em harpês. E os belos erécticos rapidamente se divinizaram pelas nebulosas da brancura dentro das minhas salivas. Estanquei labialmente. E deslizaram nos meus interiores até vegetalizarem. Beijei-os em linguística harpativa antes de me ir ao altar.
Sai da arena e entrei na igreja do pandemónio. À entrada um esquilo-de-amoníaco tocava flauta de pã e olhava para cima como se fosse chover.
Segui pela rectilínea adornada de bancos ajoelhados repletos de ovelhas em devoção de cascos ao alto. Aninhavam-se perante a maria inominável metamorfoseada em vénus das peles. Estalava um chicote e apontava-me para o púlpito. Penosamente para lá me fui.
A profecia pluviosa mais me pareceu sacrificial, deitei-me na pedra do altar enquanto me sentia observado por um personagem espetado em sinal mais. Olhava-me estupidamente. Reivindiquei melhores condições de sacrifício à inominável. Ela rapidamente contactou o sindicato dos operários febris e entre pestanejamentos já estavam os dandizados a queimar o problema. Disse-lhe que assim sim.
Enfiou-me uma maçã pela garganta abaixo depois de sentenciar “silêncio leitãozinho!”. Assim o fiz enquanto ela me despiu a napoleónica mente, rasgou as rupturas sociais e gritou às ovelhas, “a revolução está na tosquia!”. Em cima de mim genitalmente nua serpenteou após penetrabilidade. Fez pingar cera escorrida dos castiçais sobre os meus mamilos. Já o chicote estalava no chão e implicava a minha boa conduta.
Quase trepidava quando me passou uma lâmina afiada sobre o peito. Desenhou um pentagrama invertido clamando, “as estrelas das cinco pontas apontam à genitalização!”, “norte, sul, este, oeste, e o mais importante, eu!”.
Como não tinha a ampulheta do anúbis perdi as areias aos tempos, os gritos foram enchendo os pulmões até explodirem pela direcção penta gramática. Após a última pinga de grito desmaiei.
Acordei estremunhado e não existia qualquer alma dentro da igreja. Cuspi a maçã e vesti os trapos sobreviventes à revolução da tosquia. Fui-me à saída e chegado ao céu aberto humidifiquei-me perante um aguaceiro de chuva vermelha. E caia pela direcção penta gramática. Bruno Miguel Resende

En 1864 Baudelaire viaxa a Bélxica. Sábese que da relación coa calva e chosca Sarah naceu un primeiro conato de parálise por sífilis; o que se descoñece é se a degradación física ten que ver coa visita guiada que de Namur lle fai Félicien Rops, pintor, gravador, castelao mangante, pornógrafo, libertario e absentista; o que si sabemos é que lle dá un chungo na igrexa de san lobo, que non está mal para un aprendiz de romántico.
Estando a afasia está a náusea,coa hemiplexia, o carácter derretido e o buraco fondo no que deixa o cuspe cando se curta a carne nas vías do tren. Tras do traxe, tris tras, treme o trombo e estala. Non cabe dúbida de que existe un camiño, un roteiro paralelo, unha camisa de forza para o corpo, o castelo da ansiedade, a vara de medir que non se quere. Descende a vida asperamente e a fealdade é unha marca fraterna onde buscar acobillo e contaxio de todos os estigmas, dons do espírito. Trátase dun antipacto carnal, da vida como anticipo vívido de despedida, unha aceleración en pequena irmandade , un club deprivado dos transformados porcos bravos que comen mazás e espurruñan no esterco, das putas, dos tullidos e dos prófugos do cotián, onde danzan á intemperie de todas as fins de século celebrando a loita pola cruz a loita amada ou o suicidio.

Baudhuin Simon estudará no mesmo colexio xesuíta no que tantas veces se aburría Félicien. A moral católica expulsóunos. A tres quilómetros do lugar anoto: au bord de la Sambre, face a la citadelle, pas loin de L´Évèché, a trois pas du musée Félicien Rops e de sa maison natale, a tres quilómetros da memoria, e sempre en aluguer, vive a familia. A nai, autoritaria e relixiosamente puritana guinda ao fondo do río:
Un pantalón vermello;
Un libro de Émile Zola;
Unha revista inglesa.
Bò transfórmase en Pig Dada pola vía brava; nace pola vía brava e morre pola vía brava nun cruce de vías de convoio.
Na memoria de Pig Dada Lois Gil Magariños

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Robótica dos últimos dias
François Lucifer tinha bebido muito na noite anterior e agora estava sem pátria que se visse. Além disso, quando foi tomar banho e se olhou ao espelho, viu que lhe tinham crescido genitais de palhaço e uma pelugem bravia na região do músculo cremaster, configurando um singelo crucifixo. Por momentos, acreditou que fosse um indício do divino, afinal deus move-se por caminhos misteriosos e toma proporções imprevisíveis. Mas não. Ameaçado por uma nova e insensata puberdade, François Lucifer evitou sair à rua naquele dia para praticar a sua deambulação diária, enquanto a ordem não fosse totalmente restabelecida, e deixou-se escorregar pelo sofá, com um cigarro canónico entre os dentes e o comando remoto na mão indecisa.
Mal ligou a televisão, percebeu que estava a dar uma série de muito mau gosto, uma comédia barata e absurda, onde todos os actores eram fantasmas sociais-democratas às voltas com a identidade do partido. Estes também deambulam – pensou, não sem alguma superioridade inerente à sua condição de apátrida ressentido. E mudou de canal. Foi quando ouviu isto da boca de um pivot do telejornal:
“De acordo com um estudo recente, em 2050, o amor físico entre robôs e seres humanos vai ser comum, e Portugal será o primeiro estado a reconhecer uma lei que consagrará a união legal entre humanos e humanóides de qualquer tipo.” François Lucifer não quis assistir ao resto da notícia e irrompeu em lágrimas e lamentos pequeno-burgueses e nacionalistas. A sua espécie estava decididamente posta em perigo. No futuro, haveria robôs muito mais ociosos do que ele, com uma muito maior acuidade estética e crítica, com uma superficialidade bem mais arejada e definida. Foi então que, arrastando-se pelo chão fora, voltou à cama, donde nunca deveria ter saído, e sonhou que deambulava por um romance de ficção-científica.
André Domingues
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No negro deste quarto há um rosto sem rosto que vive numa câmara escura sem qualquer orifício. É difícil respirar num lugar assim, procuro um ponto de luz qualquer para ler o turbilhão de palavras que aflora das linhas cravadas no vácuo da tua pele. Há quem consiga imaginar o sol no negrume visceral das não imagens. Eu não. À semelhança de Barthes, nunca coincido com a minha imagem, há sempre um parêntese dois parênteses três parênteses mil parênteses a incomodar. Já não quero mais espelhos. Parti todos os espelhos. Quero varrer os meus vestígios para um terreno estéril. Apaguei todas as cores, só me resta a cor ausente, a cor que perdeu toda a sua luz e todo o seu pigmento. Há outras ausências neste quarto, aquelas que me perseguem aquelas que me sufocam aquelas que me transformam num jejum autofágico. Um cadáver virtual em decomposição precoce, sem direito a cortejo fúnebre sem direito a ritual de luto sem direito a choro,desequilíbrio neurótico décollage paranóica há perigo de contágio. Golfadas de sangue ejaculam da tua boca desabitada, escarlatando o branco da tua pele, da nossa pele. Pescoço peito braços mãos pernas pés asfixiam na língua vermelha da serpente. E o olhar do mundo fixo em mim. E o meu olhar fixo em mim. Dos meus lábios não sairão mais palavras. Acabaram-se as palavras. Esgotei todas as palavras. Deixo cair os meus olhos no chão, e aproximo-me da janela. Este cárcere sagrado será o meu relicário, onde guardarei as lágrimas que não sei contar. Quem sabe contar as lágrimas da videira após a poda? E as gotas da chuva? E a areia do mar? E as estrelas do céu? Os vidros fazem descer a sua opacidade sobre mim, não sou mais um espectador da coreografia das nuvens, aguarda-me um perpétuo devir no ossário das minhas recordações. Os ossos. As ossadas. Cavernames ignotos. Com os ossos que povoam o solo, mandarei erguer um claustro para abrigar o que resta da minha parca compreensão de todas as significações, mas o que eu quero é anular todas as significações, mutilá-las uma a uma, e sepultá-las no cemitério do absurdo de Beckett. Preciso de uma bengala para apoiar o meu corpo empilhado de crânios remexidos, não sei de onde vieram, nem o que querem de mim, a minha única certeza é que vão ficar, instalaram-se na minha casa sem pedir autorização, sagaz metamorfose bruegeliana, onde a morte é um triunfo, onde a morte é um trunfo, naipe glorioso que enaltece a minha condição. Ilusão truncada. Uma cama de cinzas trespassada com facas de prata a derramar excrementos. Lambo um caixão de feridas até aos vermes. Banho de saliva a embarcação. Estampilha de garantia. Pode seguir viagem. É meia-noite no relógio que acompanha o cortejo, os cães rasgam as vestes mortiças dos vultos que copulam no ar. Voluptuosidade saturnina. Delicioso deleite. A multidão a arder. Os animais a arder. Os átomos a arder. Gemidos e lamentos rebolam nas chamas. Conflagração frenética. Filipa Aranda
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Extracto de uma carta de François Lucifer à menina Amália de Pádua
Há uma festa dentro de ti e eu visto-me de convidado. Tu ainda não me conheces, mas já me acenas com a tua morada. Nunca abras a porta a estranhos, a não ser que estejas à espera de um milagre, e Jesus seja o nome de um bandido (e não de um convidado) que já não te peça uma tigela de sopa, mas que dispas o pijama. Na dúvida, é sempre melhor abrir.

São tão vagas as noções que tenho de propriedade privada, que se torna inútil agora discuti-las. Mas amar é forçar a entrada. Um marxista diria: arrombar a propriedade privada. Amar é privar a propriedade privada de fronteiras e evadi-la de um certo tipo de privacidade estática, a que os condomínios fechados julgam atingir por intermédio de uma falsa promessa de insularidade .

Amar é pilhar. Pilhar e pedir muito para ser pilhado e fazer disso vida e oração.

Assim, faz sentido dizer: rouba-me tudo o que tenho, Amália, e serás salva. A vida, por favor, deixa-a um pouco para mais tarde. De resto, o meu corpo é teu: aproveita. Diverte-te. Constrói à sua custa e à tua imagem qualquer coisa que te faça lembrar alguém e a sua obscura demanda. Vinga-te aqui, em mim, de mim, de todos os momentos que ocupámos no escalço da coragem, que eu seja o teu mostruário privado, que não se importa que sejas tu a árvore, a madeira da árvore, as sábias mãos do mestre marceneiro e as tábuas, um último tabu mergulhado na noite da caixa, a apresentação pública do teu trabalho de casa e a minha estreia como acorde cobarde, na partitura de um qualquer decompositor de música degenerada e sentimental.

Vinga-te assim deste que não se importa que sejas tu a sua primeira e última morada, desde que tenha o mesmo direito consuetudinário, sobre os usos e costumes do teu corpo acelerado para a morte também.

Para que melhor me reconheças, Amália, digo-o mais uma vez: à tua festa, eu vou vestido de convidado. E levo um poderoso álibi em vez da gravata. E luvas de malha de ferro. E botas envernizadas.
André Domingues

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De como o prestigioso cavalheiro François Lucifer conheceu a menina Amália de Pádua e outras metereologias das paixões
(do diário de François Lucifer)
A notícia chegou com o clamor rubro do povo e o cinismo da cidade publicou-a inesperadamente, no céu cinzento que nascia. Naquela manhã, o sol tinha elementos estéreis e estridentes na sua composição fixa, mas só Amália se apercebeu disso, talvez porque também ela estava a imaginar que morria de cancro na nitidez.
Amália estava à janela, como de costume, esperando o seu príncipe.
Amália pratica a “espera do príncipe” há já alguns anos e nunca se arrependeu. Diz Amália sobre isso:
“Às vezes, são só cinco minutos por dia. Onde outros ocupam horas no ginásio ou no esquecimento, eu só prescindo de cinco minutos do meu dia. Venho à janela, a qualquer hora que seja, e fico algum tempo à espera do meu príncipe. É só o tempo de um cigarro deixar de ser.”
Amália acredita na história do príncipe, como podia acreditar noutra história qualquer: na do sapo, por exemplo. É ela quem vai morrer; é a ela que vêm ter todos os acontecimentos subtraídos. Não obstante, espera. É uma obstinada pelo dom domiciliário que redige a espera e a paciência que toda a espera implica. Mas a imagem do seu príncipe, ela desfoca-a cada vez mais nas brumas do desconcerto.
Hoje, excepcionalmente, o indeterminado não morrerá com ela, ao seu lado, escasso e frequente, com todos os seus excessos e extravios. Não. Hoje, mal acordou, Amália veio à varanda (e não à janela) regar as suas flores preferidas e foi quando viu passar um cavalheiro muito distinto. O cavalheiro, de facto, ainda que parecesse muito pós-moderno à primeira vista, fez-lhe logo lembrar um ídolo da adolescência, e depois um herói na ruína, parecido com um actor romântico que tinha visto num filme de 1948, norte-europeu, e, por fim, o estrangeiro lembrou-lhe um sósia radiante do seu pai, morto durante uma batalha incestuosa que há muitos anos trava consigo mesma, antes de dormir. A sucessão de tantos estereótipos e imagens neuróticas em desfile interrompeu-lhe a função quotidiana e Amália esqueceu-se que o seu regador estava directamente ligado à sua carência.
Ora, eu ia a passar debaixo da varanda da casa da Amália, precisamente nesse momento e levei com toda aquela água em cima. Não hesitei em apresentar queixa à polícia, mas a polícia fazia de conta que não ouvia e eu resolvi voltar ao local do acidente, para fazer justiça pelas minhas próprias mãos, que, invulgarmente, tremiam e tinham o ar da invalidez.
Quando dobrei a esquina da sua rua, Amália continuava a fazer chover com um regador do alto do rés-do-chão de um edifício, continuava a alimentar as suas flores predilectas, as flores das inconsequências, com água e expectativa. Ao longe, a sua lassidão acendia fogueiras e decretos. Sobre isto, nunca pude mentir. Naquela panaceia botânica havia versos inconvenientes que chocavam docemente contra a minha biografia.
Foi então que dissemos olá, pela primeira vez.
Hoje, Amália é minha amante e é meteorologista. Por isso a sua percepção radical, mal o dia rompeu, da inconveniência de ter nascido para morrer tão cedo, no êxito das suas previsões sem êxito. Os sinais eram cada vez mais ferozes e evidentes naquele dia, prenúncios como cães traqueostomizados perante a iminência do mau tempo e a glória do fim do mundo, e a certeza que tínhamos os dois de estar a estrangular finalmente os nossos solitários destinos, ainda que não tivéssemos consciência disso, nem razões para a ter.
André Domingues
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Todas aquelas figuras que passam pelos bares parecem-me bizarras embora familiares e substanciais na nossa vicissitude diária- a rotina plasmada nos sucalcos finisseculares da transumância cognitiva dos membros putrisseculares.
A água benta bestializa as sucursões do asfalto, ciumenta o ar envelhecido e supera os panos abandonados nas varandas da supressáo católica do hidrogénio- comer a lua nas vitrines dos bares, parece-me interessante nas abelhas do planalto da cera e descer os sucalcos até ao rés-do-chão da substância, assim se reconfiguram as vitrines diárias de todos os bares, de todos os mundos e espraia-se um dandismo vazio e um pouco amarrotado pelo novelo das gentes na orla incorpórea dos lençóis...
Carlos Vinagre
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Um dândi, um náufrago
Um náufrago agarra-se ao vocábulo boiar.
Nenhuma terra é um termo suficientemente firme.
Ao longe, lê a palavra cenário e depois tempestade
e depois sufocação.
Pensa: calma, colete salva-vidas.
Todos os dias mata um pouco do destino. E salva-se.
Hoje é só mais um dia como outro qualquer
na vida de um náufrago banal
que acabou por se profissionalizar
e até se doutorar em ciências da deriva.
A tempestade passou. Outra virá.
Confessa que nunca soube escrever a palavra meteorologia.

André Domingues
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AQUELA NOITE
Aquela noite fría en Compostela
de paseo antigo ebriagado e bohemio
en que lle deu por tender o corpo como un lenzo
pousado en pleno centro da entrañábel praza
do Obradoiro de poesía e soños
tan só para contemplar ante si a inmensidade
dende o corpo de elegancia rendida
proxectada con soberbia cara o ceo estrelecido.
A xeada sempre escolle as costas para entrar no corpo.
Unha figura maxestosa de contornos
como unha fermosa ondulación da pedra,
en harmonía co ancestral cosmos que procura,
negra sombra que do seu asombro se asombra
para deixar na lúa a pegada dun soño.
Era todo desexo fatal incontíbel en garda en espera
Todo era tentación doce a caer en decadencia
e deixarse caer xa sen remilgos sobre un corpo ben acaído
tan suavemente, como orballo na madrugada, esa fera
e depositar aquel bico delicado nos perfilados beizos,
procurar con ansia o cosmos cara a cara
e remexer estrelas coa lingua ebriagada de lus
para a posteridade.
A tentación alí estaba na praza.
Sen dúbida,
a imaxinación no luar desatada.
Era un intre de pedra xeada. El suaba a fío.
Aquela noite fría, Compostela era un bico na lembranza.
Afroxou o nudo da garabata, mais xa era tarde.
O dandi penduraba enforcado no devalo.
Alfonso Láuzara

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Hombres encorbatados
Hombres encorbatados,
hombres de camisa y chaqueta
mujer de collares
opinan y resuelven
olvidándose de donde está la gente.
Hombres de traje azul
hombres de traje claro
mujer de vestido azul
gritan para oírse sus razones
en un monólogo cerrado.
Mujeres de traje
hombre de corbata de bandera con broche
mujer de pelo suelto
aparecen colocados como reclamo
de una realidad que no existe.
Olvidado el motivo que les hizo llegar
surgen como setas para debatir
entre dos tiempos de publicidad
alimentando una industria de engaño
antes llamada circo
hoy no.

Resúltame extrano buscar na miña biografía grandes acontecementos
Resúltame extrano buscar na miña biografía grandes acontecementos.
A vida é unha suma
de feitos cotiás
que poidendo parecer pequenos
son os importantes.
Un vestido a flores
que fala da primavera,
unha diadema vermella,
moscas verdes e gordas no parque.
Graba, xogos, amigas...
O sabor da mortadela aplastada no pan
para recuperar os folgos perdidos na piscina.
As canchas do recreo
con cheiro a goma da “pelota de reglamento”.
Equipos, xogos,
as cancións das excursións...
Os meus recordos son en días soleados,
e con mandilón do colexio.
O sabor da sangue dos xeonllos
e a incríble capacidade de repartir fanta en tres partes
exactamente iguais.
As cóxegas da noite
coa soa luz amarela que entraba desde o corredor...
O sabor a vómito nas viaxes
e o cartón recortado no conto de “Florecilla”
Bicos
apertas...
as decisións.
Recordo ese olor das castañas asadas en Betote,
da casa da ronda.
O tacto veoso das maos da avoa Aurora.
Os xogos de comba,
de risas, de ser adultas.
O sabor das filloas
as tardes de pandilla comendo pipas,
os primeiros bailes,
bicos adolescentes.
As decisións, o paso do tempo, á lúa de Valencia.
A pintura
miles de follas garabateadas de soños
de escapadas
desbarrando sobre pintura.
O chorrear mollado de azul, do morado, de violeta...
As loitas e a primeiras intencións
de querer cambiar este mundo.
As viaxes
os soños de libertade.
O medo.
Recordo como ulías a sangue
e o tacto dos teus osos traspasando o meu corpo
e como cambiaches a vida
de todo o universo por mín coñecido.
O sorriso sincero,
as tardes de lectura,
a hamaca
Acontecementos nuca revelados nos libros de historia,
eu non teño certeza de que Xapón exista
pero podo determinar de forma exacta o marrón dos teus ollos.
Sabela Arias
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Dandy

Sob a sonolência de heliogábalo busquei a lucidez do dandy stendhaliano
Tornei-me irrelevante - anónimo - a mosca de diógenes - o fôlego de adónis -
Abotoado como george brummel - a la recherche d’ une parole perdue -
Permaneço junto das túlipas

- na voz diáfama de callímaco -
Sou o hóspede clandestino

- que indaga a palavra do omisso -
A penumbra e o silêncio

- o corpo ocioso de alcibíades -
Sou a erva húmida e o júbilo desnecessário

- a indiscrição da pedra - antínoo -
O que se aprimora no frívolo
- a suplicação do artifício

– o intransponível spleen -  
alexandre teixeira mendes


Fotos de Carlos Silva
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Fotografia . Pedro Jordão Ribeiro
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 desenhos de manoel bonabal