19/02/10

toda carcaça é uma ausência


capturar símbolos de força em momentos de fragilidade é inverter a ordem natural, sobre uma ponte partida os músculos do cavalo contrariam a resistência, o que o sustentou por toda a vida agora o mataria. a fraqueza exalada é sincera transcendência, golpe pontiagudo no pescoço do alce que sangra, luz única do filho que ficou para trás quando a terra o segurou pelos calcanhares e, depois de saciada, cuspiu seus chifres no rio batismal para a renovação desse ciclo tão minimalista quanto o vôo dos abutres - atuam na carnificina da falta porque toda carcaça é uma ausência e o que fica é a forma desfigurada - nem sístole nem diástole - a elevação é o silêncio da peregrinação dos tigres, buscam as memórias dos antepassados felinos nas savanas azuis, entre as árvores translúcidas de um firmamento instável soa a flauta de serafim anunciando a geração perdida. os passos rajados, que vieram de tão longe e chegaram neste lugar mais distante do que tudo, param diante do grande pai siberiano que diz: lentos tigres, vocês estão mortos, agora o que lhes resta é a condição das nuvens e a vossa força será a tempestade. noite nas gomorras celestiais, tigres de nuvem enclausurados para não atacarem as estrelas que tinham asas quando eram vaga-lumes. a eternidade não é o paraíso, é a repetição.