28/03/10

sair ao acaso


sair ao acaso é submeter-se à imprevisibilidade das circunstâncias. mas o acaso, ainda que até certo ponto, pode ser boicotado pelo modus operandi do raciocínio. as probabilidades de encontrar pessoas barulhentas em ruas silenciosas são mínimas, por isso escolher ruas silenciosas é diminuir a cota de azar do dia quando se preza o silêncio, o vazio e os espelhos que se formam por cima das poças assim que a chuva para. cães seguem precariamente iluminados, cães de rua raquíticos, sôfregos que, ao lado dos retirantes de Portinari, não destoariam, ao contrário, seriam novos elementos corroídos pela mesma insignificância que o vasto campo da desolação impõe. o sopro da morte não vem de longe, espectros em meio à travessia, por um instante, todo mundo quer morrer, ficam os que aguentam pela fé, pela loucura ou, abandonada toda a razão, sufocado todo o sentir, pelo automatismo apático da sobrevivência, quando já não há muitas escolhas a fazer. farelos, menos densos do que as cinzas da fênix. a renovação de tudo começa quando tudo acaba, o resto é gradativo como o eclipse. as horas, os minutos, os segundos, os milésimos de segundo enquanto estou, estás, estamos desenhando o círculo.