30/04/10

dupla proteção contra o que vem


enquanto dormem, afio a lâmina nos pés da mesa de suas salas. deixo na madeira o que trago nos braços a custo de pouco esforço, muito mais esforço-me ao pensar em palavras exatas ao meu chaos. ultrapasso esse cômodo, onde as cadeiras são estofadas com a acolhedora textura da ordem, dispostas com precisão, as preciosidades dos seus confortos, bem como os outros móveis, imóveis, polidos, refletem a passividade dos seus semblantes, a luminosidade dos seus sorrisos. ultrapasso esse cômodo onde as janelas e as cortinas, fechadas, são dupla proteção contra o que vem de fora e desarruma: - temos de nos prevenir da natureza. afastados da natureza, são incapazes de perceber que dela são indissociáveis, que o corpo que as transporta para os mesmos lugares, não é outra coisa senão natureza querendo manifestar-se em múltiplas direções, mas é tolhida, ao sinal do menor incômodo, acobertam os impulsos com distrações superficiais, acalmam as vontades, enganam a fome, sempre buscando a satisfação, mas o não saciar-se é humano, não tentem esconder ou não sentir o calapso que é saber-se insaciável, não tentem significar, classificar, enumerar o desconhecido porque foi isso que fizeram nos campos de concentração e nos manicômios, é o que fazem hoje nas prisões e em todos os panópticos onde existe aquele grande olho a vigiar e o chicote da boa conduta a punir. para que servem as carteiras de identidade senão para dizer quem somos e, nas entrelinhas, nos alertar sobre o que não devemos ser? acham-se no direito de dizer quem somos porque lhes convém que sejamos iguais e isso não significa democracia, mas sim padronização. não compreendem que somos vários como nossos sentimentos e não únicos como as impressões digitais ou como os nomes assinados nos documentos, arquivados nos anais públicos à espera de um passo em falso para mostrarem-se desfavoráveis a quem os assinou. ultrapasso esse cômodo e outros cômodos, onde acendem velas para afirmar crenças, onde ajoelham-se, posicionando-se espontaneamente como subalternos, onde recebem o corpo simbólico para não sentirem no próprio corpo o que este tenta lhes dizer, onde as rezas pronunciadas em voz alta poluem o silêncio interior essencial à reflexão, à evolução. ultrapasso sem esperar respostas, mas deixo a marca da minha insatisfação.