26/04/10

venho do incalculável para dizer

um narrador sofre e considera-se anti-ético por sofrer. os dilemas se propagam na penumbra que o cerca, desde que se descobriu apaixonado por uma das personagens (justo aquela que termina abraçada ao herói!) está mudo. como iniciar a história e mortificar seu coração? esse que ele segura entre as mãos enquanto anda de um lado para o outro, olhando para o chão como se a solução pudesse, a qualquer momento, aparecer escrita num pedaço de papel saído das frestas do palco! silêncio

os passos cessam, as cortinas se movem, surge um joker translúcido, aquele, aquilo vai de encontro ao aflito, pára acanhadamente e com a voz estridente, que torna estranha a língua semelhante, começa o discurso: - caro narrador, dê-me alguns minutos do seu precioso tempo agônico, venho de um lugar cujo solo as solas dos seus sapatos desconhecem, não puxe pela memória as lembranças, não existem, deste lugar, registros. venho do incalculável para dizer que tenho nesta caixa de pensamentos o fim das suas dores

(ao pronunciar essas palavras o joker, com o braço direito, envolve os ombros do narrador e o conduz pelo palco os riscos de sangue que vazam do coração entre as mãos do conduzido)

imaginemos um bosque no qual só eu e você, ninguém mais. conversemos, pois, como antigos amigos separados pelo tempo e unidos pelo mesmo, agora, confidentes sem julgamento, sinta, meu amigo, a liberdade que diz para esquecermos, nossos nomes mergulharemos no rio Letes, as águas cristalinas do alívio.