24/05/10

hurbinek não era mudo

quando abriram as portas do manicômio percebi que já não sabia atravessar a rua, boicotei as faixas alinhadas lembravam signos confusos, os pedestres atravessavam espremidos da mesma forma seus cérebros nas caixas cranianas, evoluída-mente neandertal, um troglodita num mercedes me fez vomitar ao som da buzina de luxo nada tinha aquele lugar fedia a éter, era preferível sentir o cheiro de sangue nos parecia menos repulsivo, por isso as paredes eram manchadas frases desconexas reproduzidas com toda propriedade que não tínhamos voz lá dentro sabíamos, então na área externa onde pegávamos o sol da manhã gritávamos para as enfermeiras católicas taparem os ouvidos, Hurbinek não era mudo, mas nunca gritava, fazia-se entender por gestos quando extremamente necessário, jogava-se contra a árvore repetidas vezes até à exaustão, era o horror seu corpo em farpas, cansado como que buscando um segundo alívio neste mesmo tronco recostava, esvaziado de si mirava um ponto fixo, havia no seu olhar algo de psicótico e pueril retornava ao silêncio do tempo inventado.