30/05/10

a mulher ficou azul e muda


no museu do inconsciente o palestrante advertiu: sonâmbulos com tesouras, nicht. a seguir inventou um jogo, distribuiu as vendas, ora, a cegueira induzida não pode, nem superficialmente, simular o distúrbio do sono, logo, ninguém pegaria a suposta arma sem ponta para fincar na cobaia vizinha, a não ser que este contexto quase Jodorowskyano despertasse outros impulsos ditos anormais, o que não aconteceu, infelizmente, uns esbarraram nas paredes, uns foram parar no jardim e o discurso não foi legitimado pela ação, mas tudo ficou alegoricamente colorido quando entrei na terceira sala, meus olhos expressaram entusiasmo diante do absurdo das formas, eram telas onde resplandecia o âmago dos esquecidos pela sociedade que aplaude o óbvio, pinturas de uma comovente, desnorteada sinceridade, seguiam também alinhadas de cada lado do corredor, no qual uma senhora observava as obras assustadíssima e dizia para cada um que aparecia, após um sorriso singelo: só estou de passagem. depois de umas nove passagens, me dirigi a ela, as palavras querendo saltar pela boca, sapos glóticos: minha senhora, todos estamos de passagem porque a vida é indissociável da morte, assim como a alegria existe porque há tristeza, assim como o mal é apenas a parte obscura do bem, esses e todos os demais sistemas de oposição são inerentes ao homem que nunca é permanência, ainda que parado. a mulher ficou azul e muda, não me apetece dizer essas verdades assim de maneira brusca, mas eu estava no centro expansivo do furacão desejando fervorosamente um cigarro.