08/06/10

mãe, terra, meus olhos


Enquanto dormem, afio a lâmina nos pés da mesa de suas salas, deixo na madeira e no aço o que trago no braço a custo de pouco esforço, muito mais esforço-me ao pensar em palavras exatas ao meu chaos. ultrapasso esse cômodo, onde as cadeiras são estofadas com a acolhedora textura da ordem, dispostas com precisão, as preciosidades dos seus confortos, bem como os outros móveis, imóveis, polidos, refletem a passividade dos seus semblantes, a luminosidade dos seus sorrisos. ultrapasso esse cômodo onde janelas e cortinas fechadas dizem para dentro: prevenção, eu arrisco: "temos de nos prevenir da natureza", falam. afastados da natureza, são incapazes de perceber que dela são indissociáveis, que o corpo que as transporta para os mesmos lugares, não é outra coisa senão natureza querendo manifestar-se em múltiplas direções, mas é tolhida, ao sinal do menor incômodo, acobertam os impulsos com distrações superficiais, acalmam as vontades, enganam a fome, sempre a buscar satisfação, mas o não saciar-se é humano, não tentem esconder ou não sentir o colapso que é saber-se insaciável, não tentem classificar, enumerar o desconhecido, pois foi isso que fizeram nos campos de concentração e nos manicômios, é o que fazem hoje nas prisões, panópticos onde existe aquele grande olho a vigiar e o chicote da boa conduta a punir. para que servem as carteiras de identidade senão para dizer quem somos e, nas entrelinhas, nos alertar sobre o que não devemos ser? acham-se no direito de dizer quem somos porque lhes convém que sejamos iguais e isso não significa democracia, mas sim padronização. não compreendem que somos vários, confusos sentimentos e não únicos como as impressões digitais ou como os nomes assinados nos documentos arquivados nos anais públicos, à espera de um passo em falso, para se mostrarem desfavoráveis a quem os assinou. ultrapasso esses e outros cômodos, onde acendem velas para afirmar crenças, onde ajoelhados, Pai, posicionam-se espontaneamente como subalternos, recebem o corpo simbólico para não sentir no próprio corpo o que este tenta lhes dizer, as rezas pronunciadas em voz alta poluem o silêncio interior, essencial à reflexão, à evolução, mãe, terra, meus olhos, ultrapasso sem esperar respostas, a marca da minha insatisfação nada mais é do que a cruz negada pelos meus ombros. estou sangrando no inverno entre gaivotas famintas, escuto o mar do meu inexistir enquanto a existência se resume às minhas mãos que tocam a areia pelo vento distribuída, parcialmente habito meu corpo é fragmentado, sem anestesia, sinto intensamente minhas partes quebradas como um espelho, no qual às vezes me reconheço, outras vezes não, não me peçam para dirigir, os caminhos que sigo, menos óbvios, não possuem placas indicativas, me perco todos os dias e todas as noites penso no sono como tempo desperdiçado, abro as pernas da insônia e simulo meu nascimento sempre que escrevo idealizo minha morte, pitoresca, a paisagem do sonho que me aguarda. 

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