01/08/10

filo-café wabi-sabi



Filo-Café: wabi - sabi 
3 Setembro 2010, 21h
Café de Arles
Calle Ancha, 18
Ponferrada

Abertas as inscrições (gratuitas) nas seguintes áreas:
escultura, artesanato, cerâmica, pensamento, música, audio-visual (máximo: 5m), poesia, pintura, pequena-comunicação, fotografia, performance.
Para inscrição, enviar mail (indicando nome e área de participação) para:

A participação no filo-café pode ser feita de 2 maneiras:
1-presencial (incluindo obras)
2-virtual através da publicação no blogue:

A mixtura conceptual, numa secante ao realejo da teoria prototípica, liberta o frenesim dos moldes onde se embalam neuras e depressões. A permanência do jacto onde mergulham as sinapses mais afoitas, descategoriza a emissão e desmecaniza o processo. O rótulo que os legitimadores alimentam deixa de ter colo nas mãos de quem prodigaliza a rótula. O que se torna belo sem prioris? Que caixas de veneno se envenenam com a dispersão do seu distintivo de autoritas? Será livre a beleza? Se um desenho se matricia pela bidimensionalidade e distorce o uso em volutas transferenciais, a beleza no seu fluir exala os fumos do tempo executante e condensa, por atração, o desejo do inacabado, do acrescento e mesmo da mera interferência. Nunca fica só_lida.


Inscritos:
Alberto Augusto Miranda (pensamento, Portugal), Alfonso Fernández Manso (artista grafico y ambiental. España), Ana Jiménez (escultora. Premio nacional de las artes, España), Bernabé Moya (artista ambiental. España), Carlos Silva (fotografia, Portugal), Gerardo Queipo (ceramista, escultor, EspañaGullu Sen (artista gráfico y publicista. Delhi. India), Hisae Yanase (artista plástica, performance, escultora. Japón), Iesaka Ruriko (artista plástica, Ikebana, Sodho. Japón), Italo Chiodi  (artista, arte brera de Milán, Italia), Javier Suañez Zorrilla (artista plastico, Ponferrada. España), Madhur Sen (ceramista. India), Marcos Miguelez (artista plástico y ambiental, España), Puja Sen (arte visual, India), Vicente Pastor (artista, España), Wali Hawes (ceramista, escultor, sociologo, Bombay, India), Carlos Vinagre (poesia, Portugal), Virgílio Liquito (poesia, Portugal),

Contributos:

Da fuga…, via Ponferrada.
Naquela madrugada, o roncar das ferrovias, os tumultos da continuada fuga. Ficava à retaguarda, o estrondar das bombas. As correntes de água, o cascalho de ferro, o desabar das galerias. Os mortos, o voar do meu corpo, na boca da mina. Minério, o ferro, os vagões, a gelemonite. Os berros de sangue incandescente… E as pulgas, pelas tarimbas de quem nas mina trabalhava, pululavam de alegria, carne fresca, ainda. Mais a fome incrementada. A água, quente de nada, aquecia, a fruta roubada. O lenço roxo, pelo pescoço, a vaidade, a frescura dos hipies, a promessa à rapariga dada. O meu caceteiro, o pai, o velhote, de nada. A mãe atraiçoada, o filho, um mineiro em Ponferrada. "Que cortau o el pelo, que não levas nada".
Por Chaves, a fuga, pelos campos e pelos canais da levada. A Pide, sempre presente, a aldrabice, a chicotada. A noite pela calada. A fronteira, a alvorada. Tinham sido os comboios ronceiros, Tua acima, os soldados, a carne, alguma, em debandada. Depois, os mortos da espingarda, que tombaram na noite passada.
Nas minas, as cartas da estalada, a paixão que nunca acontecera, terminara. São Miguel de Las Duenãs, os amigos da bota de vinho. Os castelhanos, os berros, a pancada. E os galegos, simplesmente, a amizade, os bocadilhos. As festas na aldeia. Os foguetes à solta, as doidas, as raparigas, a alegria, os presuntos, mais bocadilhos, a fome colmatada. O dormir, em tarimbas de portugueses, de novo as pulgas; a carta esperada. A alegria da carta, a tristeza da alvorada. Notícia, debaldada. A tristeza da carta. A rapariga do bairro. Mas nunca a amara. Só a ciciara. O corte de todas as esperanças.
O entulho do sentimento esfrangalhado, os suores, o vomitado. As ruelas da povoação, os saltos, as correrias. O cair no desespero, a febre que se fora. A cerveja que bebera. E logo, pela madrugada, o ferro, os vagões, de novo, as explosões, o vinho na bota, as ameaças de pancada, também a amizade, o refugio, do desespero.
Passados dias, os ferros carrilhos, , o outro sonho, o sonho, rumar a França. O destino. E o sol, por enquanto, ali no cais, esse tostava-nos o lombo, carne das explosões do aço, dos tanques e minas, de amigos os esfarelados. Também do amor da minha mãe, das coças, por mim, nelas caídas. Esse sol que empurrava a minha continuada fuga, a saída da placenta.
Terra escura, que me soltara cedo ao vento. E depois do cais, de Ponferrada, o comboio já entrara no emaranhado de túneis. Hendaya, o rumo. Para trás a anosa no cais; lenço preto a agitar as palavras da luta contra Franco, a Guernica, a destruição das populações, o estado de Portugal, a ocupação dos outros territórios, a miséria, a luta clandestina, a debandada.
Já no comboio, no seu corredor interno, pela madrugada, eu e o comparsa, sentíamos as pezadas. Os novos emigrantes espanhóis acossados, dobrados, entalados, colarinhos à vista, as boinas, as cestas, os açafates, algumas galinhas, a chama ardente, ali naquele compartimento, a noviça, as mamas oscilavam-se com o rodar do comboio. A velha mestra pela cobiça. O olhar, o convite, o colo, as tetas pendulares. E o trem inflexível, a rodar, e as ditas a abanar, a língua, sorvendo os líquidos, e eu a chupar. Os boinas a mirar, o meu amigo a drenar, a languidez a elaborar.
As formalidades. O destino. As autoridades francesas, a liberdade. Por terras de França, o trabalho a encontrar. Os outros amigos. A comidinha, por dar. A fome. Algum desespero. Os amigos de “Peniche”. A loucura na casa. A dormida com cinco na cama, a fome a avançar. A paranóia, o lugar, diziam, assombrado, e os meses a rodar. E de noite a cama a levitar. Eu a alertar. E dormiam, os outros, tinham que ir trabalhar. E de dia, a procura, na casa entre choupos. As chaves do sótão. A descoberta, a mesa abandonada com restos de comida e eu a chafurdar. Os brinquedos de crianças, as teias aranha, e eu a roubar roupa contra o frio. E de novo a cama a levitar, os sons da loiça a tombar. E eles, estás maluco, deixa-nos dormir e trabalhar, é só imaginação, vai-te embora. E a fome continuava. E os dias sempre iguais. E a partida, de novo às origens, ao regime.
E o comboio de novo, virado ao contrário. Irun à vista. Mas em Endaya, na linha do trem, novamente as espingardas, os tiros pelas costas, silvando, emitindo-se berros contra o retorno. O virar de costas, os de novo tiros ao calha.
E Irun penetrado, mais tiros. A entrada em Espanha. As boleias. De novo, São Miguel de Las Duenãs: repescar o lenço rouxo, o tecido de todas as frescuras, umas cartas por ali me esperavam.
Ela também não me amava, porém, dizia. Esfrego o grelo à tua pala.
Zamora em frente. Alcanices pela pista de Quintanilha. E os guardas fronteiriços, o mergulho no rio Maçãs. E, então a lembrança dos outros, dos tiros que mataram em Vila Verde da Raia, Feces de Abago à vista, não para os que não foram fuzilados.
Da fuga, o retorno, a mãe que muito chorara, o pai que muito me espancava. A vergonha, da merda que fora, já no hospital militar. O conselho de guerra, a suposta loucura. O restante pela terra, a terra pela qual eu, por mim e todos, lutara. A terra, a placenta, da minha mãe, que então me despejara.

Virgílio Liquito