18/09/10

hoje, nova exumação de elisabeth siddall

Estourar a Caixa Antiga 4



18 Setembro 2010, 21h30m
Necrophilia de Jaime Rocha
Ciclo Estourar A Caixa Antiga
Café Astrolábio - Centro Multimeios
Espinho

Necrophilia, de Jaime Rocha, abre com uma citação de Edgar Allan Poe: “The death, then, of a beautiful woman is, unquestionably, the most poetical topic in the world – and equally it is beyond doubt that the lips best suited for such topic are those of a bereaved lover” (The Phiolosophy of Composition). A par com a imagem de um quadro de D.G. Rossetti na capa do livro, Poe (introduzido na Europa, por tradução de Baudelaire no concomitante tempo dos prerafaelitas) constitui uma password essencial para o apocalipse do texto Necrophilia – terminal quarto de uma linhagem invaginada em Elisabeth Siddall modelo e musa, geral e particular de D. G. Rossetti.
Falamos de Poe, no acento biológico da sua alterexperiência com a mulher-morta e o processo literomental transferido para uma das suas Histórias Extraordinárias: o “conto” Ligeia cujo filão amamentou qualidades de expressão novecentistas e vintistas, sustendo matricialmente alguns paradigmas da não-resignação, do não cessar (o excesso) do vencimento da morte e do delíquio em movimento, tal como se afinca, entre outros caracteres simbólicos, no Lágrimas e Suspiros de Ingmar Bergman.
A vida como excesso – o para lá da morte – é um dos múnus da grafia escrita. Ninguém, ao que é dado ler, pode falar em nome de outro (um dos grandes problemas relacionais e sócio-políticos é a fala em nome dos mortos). O acontecer literário das biotransferências é então um processo empático não tanto com o outro mas antes com a manifestação do outro (corpórea, mítica, sexual, simbólica). O outro-morto adquire a vantagem de não poder des-dizer quem sobre o outro-morto diz. Na dimensão poética, as “realidades” não são um factor probatório de pesquisa. Outra veracidade se levanta pela emanação quântica. Jaime Rocha, até pelas suas características dramatúrgicas, ressuscita o outro-morto para lhe dar fala e com ele (ela, e.siddal) falar. Nesta fala intervêm todos os coabitantes de Elisabeth e todos os artefactos (pinturas, textos) e processos de cessação, incluindo o coveiro (um tal Charles Towel talvez descendente do Marquês de Pombal). Se morremos sozinhos, a nossa morte sofre, porém, a parafernália da indústria que rodeia o corpo-cessado. Escreveu Sylvia Plath: “To die is an art like everything else”. O mesmo se pode dizer da escrita sobre a morte.
A dimensão poética traz o excesso, o contínuo, a não-perenidade, a não-aceitação. Os séculos 19 e 20 conferiram à Morte o fundamental dos aconteceres poéticos. Precisamente pela necessidade de exceder a Morte.